Guerra de Israel: veja 14 perguntas e respostas para entender o conflito com o Hamas
14/10/2023 12:16 em Novidades

A tensão entre israelenses e palestinos se estende há mais de 70 anos e ganhou um novo capítulo no último fim de semana, com o mais recente ataque do grupo radical islâmico Hamas.

A ação foi considerada como uma das maiores investidas dos últimos anos e o Hamas afirmou que a ofensiva seria o início para a tomada de território.

Em reação, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou guerra e afirmou que os palestinos pagariam um preço alto e que a resposta de Israel a Gaza “mudará o oriente médio”.

CNN ouviu o professor de Relações Internacionais do IBMEC de Belo Horizonte Christopher Mendonça e o comentarista especial de guerra Heni Ozi Cukier, conhecido como Professor HOC, para entender o conflito em 14 perguntas e respostas.

O que é o Hamas?

O Hamas é um grupo político e militar fundado nos anos 1980, que tinha como objetivo inicial vencer as eleições entre os palestinos e lutar pela causa de seu povo, inclusive pela criação de um Estado.

A organização é considerada terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

Segundo o Cukier, o Hamas é “um braço da Irmandade Muçulmana, grupo político e de extremistas armados do Egito, que se intitulam o movimento de resistência palestino contra a existência de Israel”.

Como Israel foi criado?

De acordo com Christopher Mendonça, após a Segunda Guerra Mundial, encerrada em 1945, houve uma grande pressão internacional para que as vítimas do Holocausto, muitos deles judeus, fossem beneficiados de alguma forma diante da perseguição sofrida nos anos anteriores.

Cukier explica que, além do movimento nacionalista israelense, existia o movimento nacionalista palestino, que também desejava ter seu Estado.

“O fruto desse movimento levou a criação de dois Estados por uma partilha feita pela ONU em 1947 e 1948. Foram divididos dois territórios. Um seria a terra e o Estado para o povo judeu e o outro seria a terra e o Estado para o povo palestino. Essas divisões dos territórios foram feitas com base nas populações que viviam nos locais”, prossegue.

A partir disso, na localidade com maioria de judeus seria formado o Estado de Israel e onde estavam os palestinos, o Estado da Palestina.

“Essa definição não foi aceita pelos países árabes na época, que declararam guerra e atacaram Israel. Houve a Guerra de Independência e, posteriormente, Israel forma o seu Estado oficialmente.”

O que é o Estado da Palestina?

O Estado Palestino não existe oficialmente.

“O povo palestino busca, há décadas, que a comunidade internacional reconheça a criação de um Estado que abrigue este povo. Houve várias propostas de criação do mesmo, mas até o presente momento todas as iniciativas foram frustradas”, diz Mendonça.

Cukier cita algumas razões para que não se tenha chegado a um acordo final:

  1. Os assentamentos israelenses na Cisjordânia;
  2. Os palestinos desejam que a capital de seu território seja em Jerusalém, que é controlada por Israel;
  3. Direito de retorno dos palestinos que deixaram o território. Se eles voltassem, teriam que habitar o Estado de Israel;
  4. Divisão do território palestino em Gaza e Cisjordânia, que possuem controles diferentes, do Hamas e da Autoridade
  5. Palestina, respectivamente;
  6. Exigência de Israel para que a Palestina seja desmilitarizada, dado o histórico de desconfiança.

Israel tomou parte do território da Palestina?

Os povos israelenses e palestinos demandam a posse de territórios muito semelhantes diante de suas histórias. As áreas em litígio já passaram por diversas modificações em seu desenho inicial. De acordo com os palestinos, regiões que deveriam estar sob sua posse foram tomadas pelos israelenses, cita Mendonça.

Essa perda de território acontece a partir dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, segundo Cukier.

“Os assentamentos são realizados por uma parte da população que acredita que o território de Israel é maior do que ele é. Do mesmo jeito que tem uma parte da população da Palestina que acredita que o Estado Palestino tem que ser o território inteiro”, continua o professor.

“Tem dois mitos: de um lado, um mito que alguns judeus falam que a terra da Palestina era ‘uma terra sem povo para um povo sem terra’. Isso não é verdade, tinham palestinos ali, então não era uma terra sem povo. A outra narrativa diz: ‘Os palestinos estavam ocupando toda a terra e, aí, os judeus chegaram e expulsaram os palestinos.’ Isso não é verdade. Sempre existiram judeus vivendo ali, desde antes de Cristo”, explica.

“Sempre os dois povos viveram no território. O ponto é que eles têm que aceitar dividir o espaço, começando uma discussão de onde é a fronteira”, finaliza.

Por que a Faixa de Gaza é tão importante?

A Faixa de Gaza é importante, segundo Mendonça, por ser o território no mundo com o maior quantitativo de palestinos, com mais de 2 milhões de habitantes.

Para Cukier, a importância também acontece por ela ser administrada pelo Hamas.

“Ela não é uma terra necessariamente rica, mas o ponto central é ela ser governada por um grupo diferente e ser um território que tem de fazer parte da criação do Estado Palestino”, pontua.

A Faixa de Gaza pertence a qual país?

A Faixa de Gaza não pertence a um país em específico, mas sim aos palestinos.

“Historicamente, os otomanos, os britânicos, o Egito já ocuparam Gaza”, explica Cukier.

“O território palestino é uma descrição política do que vai ser o Estado Palestino”, prossegue.

O que o Hamas deseja atacando Israel?

Na carta de fundação do Hamas, segundo explica Cukier, não é reconhecida a existência do Estado de Israel.

“O Hamas só vive de um objetivo: a guerra. E, para se manter no poder, o Hamas precisa de guerra. Então, o objetivo é fazer mais guerra para que ele sobreviva e quanto mais guerra ele fizer, mais ele consegue ganhar o apoio dos palestinos. Em uma situação de guerra, quem é que pode representar e lutar pelos palestinos? O grupo de guerra, o grupo do Hamas”.

Por que o Brasil não classifica o Hamas como terrorista?

O governo federal afirmou que não classifica o Hamas como terrorista porque segue as qualificações estabelecidas pela ONU.

Em comunicado divulgado pelo Itamaraty, é informado que as especificações de entidades como terroristas são determinadas pelo Conselho de Segurança, órgão encarregado de velar pela paz e pela segurança internacionais.

A lista de entidades que são classificadas como terroristas pelo Conselho estão incluídos o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, além de grupos menos conhecidos do grande público.

Quem financia o Exército de Israel?

Mendonça diz que as Forças de Defesa Israelenses (FDI) contam com recursos do próprio país.

“Além de um país desenvolvido, há um índice de investimento em capacidade militar que faz de Israel uma referência para o mundo. Os Estados Unidos auxiliaram em diversas ocasiões o progresso militar israelense.”

O Hamas e o Hezbollah são grupos diversos e, portanto, com interesses diversos, eles podem se aliar? Qual o perigo de isso acontecer?

O Hamas está concentrado em Gaza e o Hezbollah no Líbano, ao norte de Israel. Há possibilidades reais de que os dois grupos se aliem contra Israel e isso geraria um novo patamar ao conflito, segundo Mendonça.

Cukier pondera que é muito perigoso que isso aconteça.

“O Hezbollah é muito mais poderoso que o Hamas, com um estoque de 150 mil mísseis. Imagina um outro grupo que tem mísseis de longo alcance, melhores e mais precisos, e numa quantidade de 150 mil. Eles são muito melhor treinados e estão em guerras em vários lugares, como no Iêmen, na Síria e no Líbano”, pontua.

O Hamas pode estar recebendo apoio financeiro e/ou militar de outros países?

O vice-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jon Finer, reiterou que, embora o país acredite que o Irã é “amplamente cúmplice” dos ataques do Hamas em Israel, ainda não possuem, neste momento, “informações diretas” que liguem os iranianos aos ataques.

De acordo com Heni Ozi Cukier, “todo mundo sabe que, no passado, sempre existiu a conexão entre o Hamas e o Irã, que o financia. Os Estados Unidos mandaram os porta-aviões para Israel mandando um recado para o Irã: ‘Não incentive o Hezbollah a entrar'”.

A guerra em Israel pode interessar a outros países da região? Se sim, quais e por que?

Os especialistas ouvidos pela CNN concordam que o conflito pode interessar a outros países da região, especialmente os países árabes que não reconhecem a existência do Estado de Israel, como o Irã, o Líbano e a Síria.

Cukier, no entanto, pondera, que o conflito pode também ser do interesse da China e da Rússia. “Eles estão em rota de choque contra os Estados Unidos e o Ocidente. E Israel é aliado dos EUA. Então, eles querem tirar a estabilidade”.

“Tinha uma coisa que estava em via de acontecer: um acordo de paz entre Arábia Saudita e Israel. Então, os EUA trariam a Arábia Saudita mais pra perto deles e menos pra Rússia e China. Então, era do interesse deles que isso acontecesse”, acrescenta.

“O mundo está se dividindo em blocos, e esse bloco não tem interesse que o Oriente Médio siga o caminho desses acordos de Israel com a Arábia Saudita, da Arábia Saudita com os EUA e assim por diante”, finaliza.

O que foram os Acordos de Oslo e qual a importância deles para a guerra atual?

Os Acordos de Oslo foram negociações firmadas em 1993 entre Israel e os palestinos no sentido de delimitar a área de direito de cada um destes povos, de acordo com Mendonça.

“O então presidente americano, Bill Clinton, foi um dos importantes mediadores deste processo e o povo palestino, nesta ocasião, foi representado pelo grupo Fatah, liderado por Yasser Arafat, que era predominante em Gaza naquele período”, relata.

Qual seria uma possível solução para o fim do conflito entre israelenses e palestinos?

Para Heni Ozi Cukier o primeiro ponto para o fim do conflito é não ter um grupo extremista do lado palestino. “Ou seja, não ter um grupo que não aceita o direito de Israel de existir.”

Posteriormente, o professor vê como obstáculos: a questão dos assentamentos; a disputa por Jerusalém; o retorno de palestinos para o território ocupado por Israel; e a desmilitarização do Estado da Palestina.

Christopher Mendonça, por sua vez, diz que “ainda é muito cedo para apontar soluções para o conflito”.

“Mas, certamente, essa finalização depende do voluntarismo dos dois lados em cooperar para o fim do conflito, que já gerou resultados humanitários e econômicos que atingem de forma gradual as relações internacionais”, finaliza o docente do IBMEC de Belo Horizonte.

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